terça-feira, 19 de maio de 2009

Morando no ar

A pequena e colorida casa da menina ficava à beira de uma longa estrada de chão. Nem tão distante da árvore que dava amarelas frutinhas, passava todo dia uma Maria Fumaça. Seu Martín passeava em frente à casa todo o sábado. A menina corria e pedia a ele que lhe contasse uma nova história. Naquele sábado, a menina sentia-se especial. Sua mãe fazia um delicioso bolo.

Ela foi até o jardim. Intrínseco com suas rosas azuis. Sentou-se no balanço de metal que havia sido pintado de branco e ficou a esperar seu velho amigo que lhe contaria mais uma história. Então, pôs-se a balançar com força...

Seu Martín apareceu. Com seu rasgado e rebatido sobretudo de lã, sua calça xadrez e sua bota sete-léguas. As botas... Havia vezes em que a menina perdia a atenção da história com o olhar fixo nas botas de Seu Martín. Como ela gostava daquelas botas... Seu Martín, escorado na imensa árvore que nunca havia dado nenhum fruto, esperou que a Maria Fumaça passasse por ali. Os dois não tinham trocado uma palavra sequer. A Maria se foi. O apito cada vez mais longínquo. Não podiam mais ver Maria. Mas a emissão do som daquele apito que se afastava fazia seu olhar permanecer fixo na floresta a qual Maria adentrara, como se, pelo som, pudessem ver o doce trem.

A menina arregalou seus cintilantes olhos verdes para Martín, ele entendeu o pedido e começou:

“Muito bem menina. Hoje, contar-lhe-ei uma última história. Uma curta e última história. A história de uma menina como tu. Cabelos tão compridos quanto os teus. Desejos que aparentavam ser impossíveis... Como os teus. Numa tarde ensolarada de inverno ela decidiu que iria sumir. Foi até o galpão. Procurava os antigos pertences da avó. Revirou o velho beliche. Tirou todas as caixas de brinquedos. Desmanchou as pilhas de cadeiras. E afastou as caixas com as cartas nunca enviadas de seu tio avô. Até que encontrou duas grandes malas de madeira. Tirou o primeiro antiquário. Um vestido verde da década de 50. Vestiu. Foi até a vitrola. Ligou. Billy Holiday. Ficou girando com aquele vestido. Voltou até a mala e tirou outras peças. Não encontrou o livro de magia. Mas no fundo da mala, estava um pequenino frasco colorido. Ela não sabia o que tinha dentro dele. E mesmo assim, o abriu...”

O bolo estava pronto. A mãe da menina foi servi-lo lá no jardim. Quando aproximou-se do balanço, suas mãos deixaram que o bolo caísse aos seus pés. O balanço havia arrebentado. A menina? Havia sumido. A mãe? Correu até os trilhos da Maria Fumaça. Ela não demoraria a passar...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

marca


A fina sobrancelha desenhada em um rosto enrugado e sem maquiagem: vaidade. Não importa se a vida encaminhou um destino torto. Não que ela quisesse andar dia-a-dia com aquele macacão verde ou alguma das camisetas que ganhou durante a campanha eleitoral – não implicava, usava tanto a vermelha quanto a azul. Mas as melhores roupas ela guardava para os bailes de domingo à tarde, na cidade vizinha.

Era todo domingo. Gastava pouco. Almoçava em casa, sozinha. Arrumava o cabelo curto e cacheado. Tintura em dia. A gola canoa da blusa cor vinho deixava entrever a asinha de um anjo tatuado no ombro.

Às três da tarde entrava no ônibus de linha. Depois, um urbano. No baile sempre havia quem pagasse o que ela consumia. Pouco. Geralmente uma coca-cola 350ml. Cada domingo, fazia um novo amigo. Achava que não tinha mais idade pra “se compromissar”. Depois, não depositava tanta fé nos amigos de domingo à tarde. Eles geralmente não voltavam ao mesmo baile.

Dançava por um longo tempo – aguentava bem por causa do trabalho na rua – e sentava pra conversar. Falava o que fosse: novela, notícias... Trabalho, não.

Com o ônibus das 18h45min voltava pra casa. Tirava um cochilo. Em casa, assistia ao Fantástico jantando sozinha. Antes de dormir, tomava um bom banho e lembrava que na segunda-feira voltava a varrer as ruas. Sem maquiagem, só a sobrancelha se mantinha.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

devolve moço


gosto:
Devolve moço
Ana Cañas

Existe aqui uma mulher
Uma bruxa, uma princesa
Uma diva, que beleza!
Escolha o que quiser
Mas ande logo
Vá depressa
Nem se atreva
A pensar muito
O meu universo
Ainda despreza
Quem não sabe
O que quer...


Meu coração
Eu pus no bolso
Mas apareceu um moço
Que tirou ele dali
Não!
Isso não é engraçado
Um coração, assim, roubado
Bate muito acelerado...


Devolve, moço
Devolve, moço
O meu coração
No bolso...

terça-feira, 7 de abril de 2009

samba

♪

Eu vou deixar
de viver em sociedade
Vou morar no fusca
Só eu e meu violão

Vou comer no botequim
Vou tocar na rua
E vou cantar
só na tua janela... ia, ia!

♪

segunda-feira, 23 de março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

♪ maria e a padaria

Corre para clarear
Foge para o escurecer esquecer


Ela só queria libertar sua cabeça
de tudo o que era duvidoso
de tudo o que a afligia
todo dia, todo dia

Era mais uma Maria
Tinha problemas como todo João
e se questionava para todo Zé
O que não sabia
era que tudo se resolveria...

Bastava que Maria
esquecesse da rotina

Durante o dia, ela devia trabalhar
Mas ao sair da padaria,
ela viraria outra mulher

Tirou o gorro e usou sorriso
Tirou o jaleco para poder abraçar

Para ir até em casa
Ela correu para espairecer
E no escurecer da noite,
esqueceu que era empregada.

Sorriu para o marido
e brincou com as crianças

No dia seguinte,
mesmo no trabalho,
ela sentiu-se outra Maria.